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sexta-feira, 11 de janeiro de 2013

Tudo ou Nada - Luiz Eduardo Soares

O antropólogo e cientista político Luiz Eduardo Soares narra em seu mais recente livro "Tudo ou Nada" a história real de Ronald Soares, um ex-operador financeiro que larga sua HP-12C, suas análises gráficas e fundamentalistas para cruzar oceanos a bordo de seu veleiro.

Depois de uma ascensão meteórica no mundo dos negócios com apenas 22 anos de idade, Lukas (Ronald Soares) resolve casar com o seu grande amor da escola, e com o bolso cheio, na época, banca um baita casamento no Outeiro da Glória - RJ para 1.000 convidados, festa que chegou a sair nas colunas sociais.
Pouco tempo depois, descobre que sua mulher amada o traíra com seu melhor amigo,  Felício.

Decepcionado e cansado de tudo, Lukas se afunda no consumo de drogas até chegar ao fundo do poço, em consequência de uma dependência forte de coca e heroína.
Durante um passeio pelo aterro, local que gostava de ir na hora de seu almoço, para admirar os barcos na Marina da Glória, encontra um grande amigo, sul-africano, do passado, Gordom.

Depois de uma longa conversa Lukas confessa ao amigo sua situação deplorável com o vício em drogas químicas e Gordom resolve "ajudá-lo" oferecendo sua casa, em outro país, para que o mesmo se desintoxicasse e saísse do estado que se encontrava. 
Lukas então aceita a ajuda e, depois de limpo, recebe outro convite do "amigo", intermediar uma negociação de três toneladas de cocaína que sairia da selva da Colômbia, por intermédio do cartel de Cali,  passando pelo Caribe até o destino final, a Inglaterra. 

Gordom convence Lukas a fazer tal trabalho devido sua experiência em navegação, sua habilidade financeira e pela possibilidade de ficar milionário em apenas um negócio,  seria assim a sua tão sonhada aposentadoria. 
Porém, o plano deu errado e Lukas foi preso na Inglaterra, se tornando um dos presos mais perigosos do país e futuramente extraditado para cumprir o restante da pena no Brasil.

Luiz Eduardo possui uma narrativa perfeita e conduz a história de maneira hipnotizante, mesclando os acontecimentos vividos por Ronald (Lukas) com a atual política fracassada da guerra as drogas.  

Excelente livro.

segunda-feira, 4 de junho de 2012

Ninguém é inocente em São Paulo - Ferréz - 2006

Gostei muito desse livro de contos do escritor paulista Ferréz. Sei que é um livro para poucos, destinado a pessoas que não se importam em ler sobre a realidade, sobre verdades que nem sempre agradam a todos. ''Ninguém é inocente em São Paulo'' mexe na ferida, como todos os livros do escritor. Muitos preferem ler Alice no Pais das Maravilhas ou um romance lindo e floreado a cair numa realidade social caótica, onde o lixo não é jogado para debaixo do tapete e sim lançado ao ventilador. 
Tem contos formidáveis nesse livro como ''O grande assalto" (pg23), ''Pão Doce'' (pg29), ''NO VAGA'' (pg35), ''Buba e o muro social'' (pg41), ''Pegou um axé''(pg57), ''O pão e a revolução'' e  diversos outros. 
O escritor Ferréz nasceu na periferia de São Paulo, mora no Capão Redondo e engajado em projetos sociais de sua comunidade. Afirma não conseguir desvincular realidade de literatura. Como mesmo diz -  ''Moro dentro do tema''.
Entre seus escritores favoritos estão Dostoiévski, Carlos Drummond de Andrade e Herman Hesse.
Outro livro bem legal do escritor é o ''Manual Pratico do Ódio'' (2003), mas para quem nunca leu nada dele aconselho primeiro a leitura do "Ninguém é inocente em São Paulo".

domingo, 27 de maio de 2012

Crime e Castigo - Fiódor Dostoievski

Um dos clássicos do escritor russo Fiódor Dostoievski publicado em 1866. O livro conta a história do personagem Raskolnikov que comete um crime contra a dona do imóvel em que habita. 
Cansado de ser explorado e sem recursos para seus estudos, na faculdade de direito, mata a usurária com um golpe em sua cabeça, e a contragosto também sua irmã Lizavéta, por ter aparecido na cena do crime, a partir dai vive em constante fuga, tanto de sua consciência quanto do inspetor policial Porfiry. 
Raskolnikov rouba umas jóias da usurária depois do crime praticado e que acaba nem usufruindo das mesmas devido a seu sentimento de culpa, cabendo apenas enterrá-las. Angustiado com tudo a seu redor e desconfiando de todos, Raskolnikov só se sente à vontade ao lado de uma prostituta que conhecera, de nome Sonya Marmeladova, a qual se relaciona e expõe todas as suas fraquezas. 
O livro foi adaptado para o cinema por vários diretores e em diversos anos.
Na minha opinião, as melhores versões foram a do diretor Austríaco Josef Von Sternberg,de 1935, em preto e branco, e a do diretor inglês Julian Jarrold,de 2002.

Aconselho a leitura do livro pela edição da editora 34 que traz a tradução direta do Russo, as demais são traduzidas do francês para o português, isso sim, um verdadeiro crime.

quarta-feira, 23 de maio de 2012

A paixão pelos livros

Tenho uma loucura tamanha pelos livros que um dia uma amiga me presenteou com esse e falou - é a sua cara você vai amar isso. Dito e feito, além de ter adorado o presente me identifiquei com quase todos os depoimentos e crônicas dos escritores sobre a paixão que sentem pelos livros. 
Uma época era tão compulsivo por eles que gastava uma boa grana com esses companheiros de papel, a ponto de comentar o tema em uma sessão de terapia há uns 9 anos atrás, kkkkk. 
Hoje melhorei bastante, não porque parei de ler, mas devido a internet encontrei um sebo virtual que compro a mesma quantidade de livros por mês mas gastando metade do que gastava, e sem o risco de estar próximo deles no ato da compra, evitando assim a compra por impulso, quando você está in loco é punk. 
Porém, logo que efetuo a compra, fico numa ansiedade absurda por sua chegada, conto os dias e rastreio a postagem dos correios diariamente para saber se já estão próximos. Hoje mesmo fiz isso, kkk. Pareço uma criança a espera do brinquedo novo.

Esse livro é uma coletânea de contos, crônicas e depoimentos de diversos escritores como D'Alembert, Camilo Castelo Branco, Varlam Chalámov, Plínio Doyle, Carlos Drummond de Andrade, Gustave Flaubert, Benjamin Franklin, Rodrigo Lacerda, José Mindlin, Francesco Petrarca, John Milton, Michel de Montaigne, William Saroyan e Caetano Veloso, e que revelam a intimidade que desenvolveram com os livros e a importância dos mesmos na trajetória de suas vidas.
Um conto que curti foi o ''Bibliomania'' de Gustave Flaubert, pag 25, inspirado em uma reportagem supostamente verídica sobre um livreiro homicida, Giácomo, em Barcelona.


''Uma casa sem livros é o mesmo que um quarto sem janelas'' - Heinrich Mann

''Escondidas no silêncio da biblioteca, mascaradas pela escura monotonia das capas, todas as palavras estavam lá, esperando que eu as decifrasse. Eu sonhava me enfurnar naqueles corredores poeirentos, e nunca mais voltar'' Simone de Beauvoir

''Quando penso em todos os livros que ainda posso ler, tenho a certeza de ainda ser feliz'' - Jules Renard

'' Sempre imaginei o paraíso como uma grande biblioteca'' - Jorge Luis Borges

'' Um livro deve ser o machado que partirá os mares congelados dentro de nossa alma'' - Franz Kafka

sexta-feira, 18 de maio de 2012

Metallica - A Biografia - 2012

A biografia do Metallica escrita pelo badalado jornalista, do mainstream do Rock n'roll, Mick Wall foi escrita em 2010 mas só chegou por aqui em 2012, pela editora Globo com tradução da Daniela Pires, Leandro Woyakovski e Marcelo Barbão. Para quem é fã da banda, como eu, o livro é perfeito, mas quem apenas aprecia o som, não recomendo a compra. O livro é muito cheio de detalhes, e pode se tornar uma leitura chata para quem apenas aprecia a banda, ainda mais com 429 páginas. 
Mick Wall relata a trajetória do grupo desde o útero até a fase adulta. Narra o trabalho brilhante de formiguinha de Lars Ulrich, baterista e fundador do grupo, na troca de fitas cacetes entre os amantes do Heavy Metal e seu esforço brutal para colocar uma faixa da banda no Metal Massacre I. Depois o escritor relata os sérios conflitos entre James Hetfield e Dave Mustaine, nos primeiros trabalhos do grupo, o que levou a ser expulso da banda, ser substituído por Kirk Hammett, e fundar o Megadeth. Mustaine sem dúvida era um excelente guitarrista, fato que fez Kirk ter inúmeras aulas com Joe Satriani para não ficar pra trás. A saída do primeiro baixista, Ron McGovney, para a entrada colossal de Cliff Burton foi a verdadeira transformação do Metallica. Apesar dos cabeças serem James Hetfield (Guitarrista) e Lars Ulrich (baterista), Cliff Burton colocava os dois no bolso em questão de conhecimento musical, ele era o maestro e tinha um respeito absurdo de todos. Burton possuía um conhecimento musical extremamente amplo que ia de Johamm Sebastian Bach a Deep Purple, e foi essa experiência que levou o grupo a gravar o mais bem elaborado disco de Trash de todos os tempos, o ''Master of Puppets''. Na minha opinião o melhor disco da banda até hoje.
A diferença de temperamento e condição social entre Lars (riquinho, porquinho, fanfarrão e baixinho) e James (Duro, limpinho, alto e fechado) também é apresentada por Mick Wall. 
James Hetfield sempre achou Lars Ulrich um baterista muito fraquinho, mas seu trabalho administrativo e comercial era impecável, e se não fosse por ele, nada teria acontecido, a verdade é essa. 
Lars tinha o sonho de abrir uma banda nos Estados Unidos com a roupagem e o estilo da cena do New Wave of British Heavy Metal, que tinha o Iron Maiden como sua principal influência. E conseguiu realizar seu sonho. 
O Metallica foi o grande expoente da ''Big Four'' do thrash metal, junto com Slayer, Megadeth e Anthrax. O livro relata episódios engraçadíssimos mas também o triste acidente de ônibus que a banda sofreu, em 1986, a caminho de Copenhague, Dinamarca, que levou a morte do mais gente boa e experiente da banda, Cliff Burton. 
Assumo que essa parte do livro é punk para os fãs da banda e de Cliff especificamente, pois esperar a morte de um rockeiro por overdose ou qualquer coisa do gênero é corriqueiro nesse meio, mas perder a vida num acidente estúpido, que até hoje ninguém sabe o nome do motorista e qual foi a real causa do acidente, é triste demais.
Cliff era o melhor amigo de Kirk Hammett e dava altos toques de música para o camarada de quarto. James Hetfield queria matar o motorista do ônibus após o acidente e garantiu ter sentido cheiro de álcool no seu hálito, já o motorista alegou que o acidente foi causado pelo gelo que estava na pista. Todos da banda dormiam dentro do ônibus e Cliff voou pela janela e morreu imprensado. Depois do ocorrido a banda contratou Jason Curtis Newsted que era constantemente humilhado por James Hetfield, ao ponto do som do seu baixo ter sido totalmente abafado na gravação do álbum ''...And Justice for All'' (1988). Certamente a raiva que James sentia pela perda de Cliff era descontada no novo baixista. 
Jason acabou não suportando e pulou fora da banda, hoje o grupo conta com Robert Trujillo no baixo.
Uma dúvida que não sai da minha cabeça até hoje é: Como seria o Metallica se Cliff ainda estivesse vivo?
A única coisa que os fãs devem, e muito, ao Cliff foi seu brilhante trabalho na concepção do ''Master of puppets''. Valeu maestro!!!!!

terça-feira, 15 de maio de 2012

No coração do comando - Julio Ludemir

O livro é o primeiro romance do jornalista Julio Ludemir, e conta a história do amor proibido de Marquinho, integrante do Comando Vermelho e Valéria, sobrinha de um chefão do Terceiro Comando. O jornalista passou todos os finais de semana de 2001 em visitas a um presídio carioca. O romance é o ''Romeu e Julieta'' dos presídios, o amor do submundo. O livro relata como os dois conseguiam se comunicar,  os artifícios que usavam para se encontrar e o que faziam para não levantarem suspeitas do relacionamento que levavam. Valéria e Marquinho se cruzaram pela primeira vez no Complexo Penitenciário Frei Caneca e logo as facções rivais proibiram o romance. Presos em cadeias vizinhas - Nelson Hungria e Milton Dias Moreira-, Valéria e Marquinho ignoraram a proibição. E, apaixonados, protagonizaram durante três anos uma história de amor jamais vivida no interior de uma cadeia. Um amor que só poderia acabar em tragédia, como no clássico de Shakespeare.

sexta-feira, 11 de maio de 2012

Quando o Irã censura uma história de amor - Shahriar Mandanipour - 2009

Lembro que comprei esse romance da mesma maneira que o livro ''Honra ou Vendetta" do escritor, comentarista, apresentador e gourmet Silvio Lancellotti. Fiquei a priori curioso devido ao título e atento ao trabalho gráfico da capa, em alto relevo. Depois lembrei dos livros que tinha comprado, sem saber nada sobre o escritor, e no final, um livrão, e levei este pra casa também. Mais uma vez fui surpreendido e adorei a forma que o escritor Shahriar Mandanipour desenvolve seu texto. 
Num país em que a tradição ainda é muito rígida, em relação ao comportamento e a liberdade das mulheres, onde tudo relativo a arte tem que ser submetido a censura do Ministério da Cultura e Orientação Islâmica, vide os problemas enfrentados pelo cineasta Jafar Panahi, Abbas Kiarostami e pelo próprio Shahriar, achei o tema bem interessante. Para vocês terem uma idéia, nenhum filme Iraniano tem beijo na boca, isso me lembra o Cinema Paradiso, em que as cenas de beijo tinham que ser cortadas por imposição da igreja, isso na década de 40. 
O livro retrata exatamente o romance entre uma amante de livros e ativista política, Sara,  e um estudante de cinema, Dara, que se apaixonam dentro de uma biblioteca universitária, e iniciam uma estratégia de aproximação por uma comunicação, por códigos, usando seus livros favoritos como ponte. 
Desafiando a autoridade e costumes locais eles se encontram em ruas tumultuadas, cibercafés e viçosos jardins particulares de Teerã. O próprio escritor teve um imenso trabalho ao bolar o Romance pois poderia ter sérios problemas com a censura do Irã, fato que o fez abandonar várias cenas e riscar linhas inteiras. Esse também era seu maior desafio, bolar uma linda história sob os olhos do Sr. Petrovich, o todo-poderoso e onisciente censor do Ministério.
O livro é fantástico, o escritor brinca com algumas tradições e tem um jeito irônico de descrever certos costumes e fatos da cultura local.
Shahriar recebeu vários prêmios por seus romances, devido a sua literatura e atividades políticas, Mandanipour sofreu assédio, ameaças, censura e intimidação do Ministério da Cultura e Orientação Islâmica. Entre 1992 e 1997 ficou proibido de publicar seus livros. Em 2006, se mudou para os Estados Unidos.

quarta-feira, 9 de maio de 2012

O FIM DA GUERRA - A Maconha e a criação de um novo sistema para lidar com as drogas - 2011

O jovem jornalista Denis Russo Burgierman apresenta cinco estudos de caso de lugares do mundo por onde passou, Holanda, Califórnia, Espanha, Portugal e Marrrocos, em busca de experiências inovadoras que possam apontar o caminho de uma política de drogas que funcione. Esse tema começou a ganhar mais ênfase no Brasil e no mundo de 2005 em diante. Aqui já foi tema de vários documentários excelentes, mas com exibições ''controladas'' e até boicotadas pelas grandes salas, como o ''Cortina de Fumaça'' do Rodrigo Mac Niven e o ''Quebrando o Tabu'' de Fernando Grostein. 
A Holanda, Califórnia e Espanha conseguiram quebrar a lógica atual ao separar a maconha das outras drogas A Califórnia já conta com dispensários para a venda da ervinha do capeta para a cura e o tratamento de diversas doenças, como para redução dos enjôos do tratamento quimioterápico dos pacientes com câncer até uma simples asma ou insônia. A Espanha aboliu o mercado paralelo, possibilitando o plantio caseiro. Denis Burgierman relata que existem 210 milhões de usuários de drogas ilícitas. Destes, 80%, 165 milhões, seriam usuários de maconha. Com a sua regulamentação, sobrariam apenas os outros 45 milhões usuários de drogas pesadas, dos quais 10 milhões são considerados usuários problemáticos.
O Brasil ainda permanece com a idéia da guerra como solução do problema, e enquanto isso, diversos policiais são mortos, traficantes, moradores das comunidades e jovens, mas o arrego, esse sim, é legalizado. Abra sua cabeça e se informe para ter uma opinião embasada, veja um pouco dos debates já feitos na web, nos documentários e em outras mídias. A pior ignorância é a recusa a informação.


Outro debate com a presença do escritor - http://www.ustream.tv/channel/falha

domingo, 6 de maio de 2012

O livro das ignorãças - Manoel de Barros


Manoel de Barros é o poeta da simplicidade, da natureza, da palavra atrelada a imagem e ao som, da cor e da forma. O poeta nasceu em Cuiabá e passou sua infância e adolescência dentro da fazenda do pai, onde teve contato direto com os ''causos'' dos matutos que trabalhavam por lá e com a natureza, temas de seus diversos poemas. Manoel brinca com as palavras, busca cada uma para compor seu poema sem o rigor gramatical, mas com o rigor da imaginação que a palavra induz.
O CINE ROCK CLUBE lamenta muito a falta de conteúdo nos meios de comunicação de hoje em dia, querendo empurrar guela abaixo do povo os enlatados de costume, as famosas porcarias do sistema e esquecem de divulgar e homenagear o poeta, com uma simples nota,  pelo prêmio de Literatura Casa da América Latina/Banif 2012, de Criação Literária, atribuído à obra "Poesia Completa". Detalhe o poeta ganhou o prêmio em ABRIL. 

Mas o ''Eu quero é Tchun e eu quero é tcha'' tá a mil, kkkkkk, francamente.

No Brasil, Manoel de Barros obteve os principais prêmios literários como o Prêmio Nacional de Poesia (1966), o Prêmio Jabuti (1989 e 2002), o Prêmio da Academia Brasileira de Letras (2000) e o Prêmio Nestlé de Poesia (1997 e 2006), entre outros. Em 2008, o cineasta Pedro Cezar realizou o filme "Só Dez Por Cento é Mentira – a Desbiografia Oficial de Manoel de Barros", que em 2009 obteve no Brasil dois prêmios como o melhor documentário longa-metragem.

''O rio que fazia uma volta atrás de nossa cara era a
imagem de um vidro mole que fazia uma volta atrás de casa.
Passou um homem depois e disse: Essa volta que o
rio faz por trás de sua casa se chama enseada.
Não era mais a imagem de uma cobra de vidro que
fazia uma volta atrás de casa.
Era uma enseada.
Acho que o nome empobreceu a imagem.''

''No descomeço era o verbo.
Só depois é que veio o delírio do verbo.
O delírio do verbo estava no começo, lá onde a
criança diz: Eu escuto a cor dos passarinhos.
A criança não sabe que o verbo escutar não funciona
para cor, mas para som.
Então se a criança muda a função de um verbo, ele delira.''

A poema abaixo ''ESCOVA'' não faz parte desse livro mas é bem bacana.
   

sexta-feira, 4 de maio de 2012

Ganhando meu Pão - Máximo Górki

Ganhando meu pão é o segundo volume da trilogia autobiográfica do escritor russo, Aleksiei Maksimovitch Picckov (Górki), onde descreve as dificuldades que passou em sua adolescência, com a falta do afago materno e na luta pela sobrevivência desde novo, em seu primeiro emprego, numa loja de sapatos. Com a ausência da mãe, Górki foi criado pelos avós e não tinha uma relação muito boa com seu avô, viviam brigando. Porém, possuia uma adoração por sua avó. Devido as dificuldades financeiras e a relação ruim dentro de casa, sua avó, pensando no melhor para o neto, preferiu que Górki fosse criado pela tia, pois teria uma oportunidade de viver com mais conforto. Na verdade o cenário foi um pouco diferente que a avó pensara. Górki era constantemente maltratado por sua tia, forçado a trabalhos quase escravos e tudo que acontecia de errado era por culpa do garoto. A única pessoa com quem fez amizade, no período em que lá ficou, foi a vizinha de sua tia, uma moça culta e que sabendo do interesse de Górki pela leitura emprestava, a cada dia, um livro diferente para ele. O problema é que sua tia o proibia de ler,  fato que o fazia virar as madrugadas lendo escondido à luz de vela. Quando a maluca da tia encontrava um livro rasgava e dizia que a leitura não fazia bem, que era para subversivos, vagabundos, que tirava a atenção do trabalho, que as pessoas enlouqueciam, kkkkk. Pior que é sério.
Não aguentando mais aquele clima Górki foge de casa e arruma um emprego em um navio, onde conhece um cozinheiro que o faz ficar mais apaixonado pela literatura ainda.
E por ai vai......

Os outros livros que compõem a trilogia são - ''Infância'' e ''Minhas Universidades''

Recomendo o livro por qualquer editora que tenha a tradução do Boris Schaiderman pois traduz direto do russo. Uma editora que tenho certeza que lançou, em 1999, o livro traduzido pelo Boris foi a Mercado Aberto.
Quem tiver interesse em conhecer mais essa trilogia sobre o Górki, existem os filmes feitos por Mark Donskoy - ''Minha Infância'' (de 1938), ''Ganhando meu Pão'' (de 1939) e ''Minhas Universidades'' (de 1941).



quarta-feira, 2 de maio de 2012

Misto-Quente - Bukowski

Misto-Quente é a autobiografia de Charles Bukowski. O escritor descreve sua infância, as surras que levara de seu pai, desde seus 7 anos, a vergonha que sentia de sua própria imagem quando adolescente, devido a inúmeras espinhas e furúnculos por todo corpo, sua dificuldade em se relacionar tanto com as meninas quanto com os amigos da escola e as diversas encrencas que se metia. O livro apesar de narrar a infância triste e pobre de Chinasky junto a seus pais, de origem Alemã, nos Estados Unidos na pós recessão de 1929, também conta com passagens engraçadíssimas. Uma delas mostra a tara que possuía por uma de suas professoras, a ponto de tocar uma bronha no meio da aula, no fundo da sala em sua homenagem, kkkk. 
Juro que quando li isso me mijei de rir e fiquei imaginando a loucura do episódio. Bukowski era um poeta do povo, dos despossuídos, dos fracassados, dos que nunca foram campeões de porra nenhuma. O escritor apesar de beber pra caramba só começou a ter problemas de saúde com 68 anos, em 1988, quando adquiriu Tuberculose e em 1993 descobriu que tinha leucemia, doença que o levou a morte em 1994. O escritor escreveu diversos livros como ''Mulheres'', ''O amor é um cão do diabo'', ''Factótum'', ''O Capitão Saiu para o Almoço e os Marinheiros Tomaram Conta do Navio'', ''Notas de um Velho Safado'',''Pulp'', entre outros. Vários filmes e documentários foram feitos sobre o velho safado. Um deles gerou até um pouco de insatisfação em Bukowski, o Barfly, do diretor Barbet Schroeder, de 1987, com Faye Dunaway e Mickey Rourke, interpretando Chinasky. 
Bukowski achou a atuação de Rourke forçada e exagerada e conta que odiou a franjinha caída no rosto usada pelo ator durante as filmagens, algo que alegou nunca ter tido. Em outras palavras, achou uma baita exibição e viadagem do ator. 
Outro filme conhecido sobre Hank é o Factotum, do diretor Bent Hamer, de 2005, com Matt Dillon interpretando Chinansky. Apesar da votação popular do IMDB ter dado uma nota maior para o Barfly (7,3), acho o Factotum (6,5) um filme muito mais bacana. Ai vai do gosto de cada um.
O documentário de 2003, ''Born into this'' do diretor John Dullaghan, esse sim, é brilhante. 
Então é isso galera, aproveitem as loucuras desse velho safado ou por seus livros, pelos filmes que contam sua vida ou através do Doc.

 

segunda-feira, 30 de abril de 2012

Laila e Majnun: A clássica história de amor da literatura persa - Nizami

O poeta persa Nizami narra o amor entre Majnun e Laila. Escrito no século XII, esse livro é considerado a mais popular história de amor do mundo árabe, a versão original continha cerca de oito mil versos e foi escrita a pedido do soberano Shirvanshah. 
O livro é o Romeu e Julieta da literatura Persa e sua história serviu de inspiração para a música Layla do Eric Clapton.
Esta história verídica acabou se tornando uma lenda entre os beduínos árabes, Laila & Majnun (Majnun = louco em árabe), na verdade era o caso de amor entre Layla e Qays, dois jovens persas.
Qays, ou melhor, Qays ibn al-Mulawwah ibn Muzahim, era um poeta beduíno. Sua história com Layla começou em uma noite qualquer, quando cavalgava em seu camelo e se deparou com um grupo de belas mulheres que iam a um banquete: dentre elas encontrava-se Layla. Ao vê-la, Qays se apaixonou perdidamente, e essa paixão o tomou de tal forma que posteriormente tirou sua razão. Layla também se apaixonou por Qays, o que motivou a ele pedir sua mão em casamento. No entanto, o pai de Layla havia prometido a mão da filha a um senhor tribal, Ebn-e Salaam. 

Com a recusa do pai de Layla, Qays ficou desolado e passou a vagar pelo deserto, abandonando a vida em sociedade. Durante seu exílio forçado, escreveu vários poemas para Layla, citando o nome da amada, os quais ficaram famosos e irritaram profundamente seu pai. Já o pai de Qays tentou, em vão, convencer o pai de Layla a conceder o casamento, pois ele estava muito preocupado com o filho,mas o homem foi irredutível, uma vez que a honra de sua filha havia sido manchada. Ebn-e Salaam não desistiu de Layla, e acabou se casando com ela, mas eles não foram felizes. O pai de Qays, desesperado com a situação do filho, que após o casamento da amada, perdeu completamente a razão,  e morreu de desgosto. Ao saber disso, Layla, mesmo casada, foi ao encontro de Qays para fazê-lo retomar a consciência, mas ele não a reconheceu, atitude que deixou seu marido transtornado. Layla não se importava com seu nome, nem com sua condição social, apenas com seu amado. O seu marido tentou de todas as maneiras conquistar a esposa, mas ela a cada dia parecia amar mais o poeta louco, e ele percebe que jamais teria o seu amor; mesmo casada e com a loucura de Qays, a jovem não abandonara a esperança de ficar com ele. 

E por ai vai.....

domingo, 29 de abril de 2012

O CANTO DA UNIDADE: Em torno da poética de RUMI - 2007

Antes de comentar sobre esse livro, apresentarei um pouco do RUMI, para quem não conhece, e contarei uma breve história que me ocorreu.

Quem foi RUMI?

Jalal al-Din Muhammad Rumi, nasceu em 1207 na província persa de Balkh, na aldeia de Wakhsh, atualmente província de Khatlon, no Tadjiquistão. Viveu a maior parte de sua vida em Sultanato de Rum, onde escreveu diversos textos. Local este que hoje vem a ser a Turquia.
Rumi foi poeta, jurista e teólogo persa do século XIII. Faleceu em Konya e seu túmulo tornou-se um lugar de peregrinação. Após sua morte, seu filho e seus seguidores fundaram a Ordem Sufi Mawlawīyah, Rumi foi um importante poeta, seus textos pregam o amor, a prática do bem e a religiosidade. Tem como obra principal o MASNAVI, um dos trabalhos mais conhecidos e influentes tanto do sufismo quanto da literatura Persa. O Masnavi conta com seis livros de poemas compreendendo mais de 50.000 linhas, e considerado por muitos como o Alcorão persa. Rumi escreveu o livro com o total auxilio de seu mestre espiritual, Shams de Tabriz. Não existe a tradução completa dos livros no Brasil, e sim um resumo, um tanto meia boca, que saiu em 1992 pela Edições Dervish, atualmente fora de catálogo e bem difícil de ser comprado. Lembro que penei para conseguir.
Shams e Rumi permaneceram juntos até 1247, quando Shams desapareceu (talvez assassinado por discípulos de Rumi, enciumados pela ascendência que ele exercia sobre seu mestre). Inconsolável, Rumi escreveu Poemas Místicos, em homenagem a Shams, que é uma compilação de poemas de "amor e de luto". Para Rumi, o amor que ele sentia por Shams personificava o amor divino. Depois do desaparecimento de Shams, Rumi criou a dança cósmica, o sama, praticada pela ordem sufi Mevlevi, conhecida como a ordem dos dervixes rodopiadores. Sama é uma dança que se inspira no movimento dos astros. "Assim como todos os corpos giram por amor ao sol, os dervixes também giram por amor ao divino, que muitas vezes precisa de uma contrapartida humana, pois no Islã o amor humano é símbolo e reflexo do amor divino".

Agora a breve história, kkk.

A vida é repleta de coincidências e essa breve história, conta uma dessas. Estava eu numa comunidade sobre a sétima arte em uma rede social, comentando sobre filmes iranianos e sobre a cultura árabe, quando conheço uma garota que sabia muuuuuuuito sobre esses assuntos. Logo fiquei interessado em aprender mais sobre os filmes, a literatura, as músicas, o idioma, e por ai vai. Começamos a trocar informações sobre a cultura do oriente, pelo MSN, e essa minha nova amiga me presenteou com várias dicas de filmes e livros que ainda não conhecia como:
"O silêncio", de 95, do Mohsen Makhmalbaf, "A Cor do Paraíso", do Majid Majidi e o livro Monsieur Ibrahim e as flores do Corão, do escritor Eric Emmanuel Schmitt. 
Em certo momento, ela me perguntou, no MSN, se conhecia o poeta persa RUMI. Lembro que respondi que conhecia pouco e que tentava comprar o Masnavi, mas que não encontrava em lugar algum. 
Uma das vezes que retornei a livraria com a esperança do Masnavi ter chegado, e mais uma vez frustrado, chego ao vendedor e pergunto:

- Você tem certeza que esse livro ainda é distribuído? Não é possível estou há mais de 2 meses esperando o livro chegar. Você pode dar uma ligada pra editora por favor?

Espero o vendedor voltar da ligação e recebo a noticia que já imaginava

- Foi mal campeão,  tem razão, o livro saiu de catálogo e a editora não entrega mais. Só catando num sebo mesmo. 


Como sabia que até achar o livro num sebo, efetuar a compra e tê-lo em minhas mãos iria demorar, algo que não queria, devido a fome que estava de ler as poesias do Rumi, volto então ao vendedor:
- Bem complicado arrumar algo do Rumi aqui no Brasil heim. Fora o Masnavi, não rola nada dele por aqui?

- Vou dar uma olhada


Vejo o vendedor vindo lá do fundo da loja, em minha direção, com um livro na mão. Pensei, beleza.

- Achei esse aqui.

Era o CANTO DA UNIDADE: Em torno da poética de RUMI. Pra mim, até então, escrito pelo Marco Lucchesi e Faustino Teixeira, como indicado na capa. 
O escritor e Teólogo Marco Lucchesi já tinha ouvido falar, e muito, apesar de, na época, ainda não ter lido nada do escritor. 
O Faustino Teixeira assumo que nunca tinha ouvido falar. 
Como minha sede de conhecimento era brutal comprei o livro e fui feliz da vida pra casa. Na mesma noite peguei meu novo brinquedo e comecei a atacá-lo. 
Na noite seguinte, entro no MSN e encontro minha amiga virtual. Rapidamente comento a novidade.

- Oi, tudo bem?

- sim

- Tá impossível achar o Masnavi mas comprei um livro que parece ser bem legal, com uns poemas do RUMI, chamado o Canto da Unidade. 

- Pensei em lhe enviar esse livro de presente pelo correio.  

- Sério? Que coincidência, comprei o livro ontem.

- Eu ajudei a escrever esse livro, o texto "Filho do silêncio, mestre das palavras: a linguagem mística do silêncio em Rumi" (pg 132) é meu. 

Quase cai pra trás, kkkk


Hoje agradeço muito tudo que aprendi da cultura persa a essa minha amiga, professora, escritora e gente finíssima Heliane Miscali. Valeu Lili!!!!!!!! "Assalamu alaikum wa rahmatullahi wa barakatuh".


O livro apresenta várias poesias lindas do Rumi e também um pouco de sua história, sua relação com seu mestre espiritual, Shams de Tabriz e muitas preciosidades desse poeta sufi.  O livro é um trabalho minucioso de tradução dos textos originais, direto do persa, pelo teólogo Marco Lucchese. 

"Vem. Conversemos através da alma. Revelemos o que é secreto aos olhos e ouvidos. Sem exibir os dentes, sorri comigo, como um botão de rosa. Entendamo-nos pelos pensamentos, sem língua, sem lábios. Sem abrir a boca, contemo-nos todos os segredos do mundo, como faria o intelecto divino. Fujamos dos incrédulos que só são capazes de entender se escutam palavras e vêem rostos. Ninguém fala para si mesmo em voz alta. Já que todos somos um, falemos desse outro modo. Como podes dizer à tua mão: "toca", se todas as mãos são uma? Vem, conversemos assim. Os pés e as mãos conhecem o desejo da alma. Fechemos pois a boca e conversemos através da alma. Só a alma conhece o destino de tudo, passo a passo. Vem, se te interessas, posso mostrar-te". 
 

Jalaluddin Rumi


Aproveitem!!!!!!!






 
 

sexta-feira, 27 de abril de 2012

Feras de lugar nenhum - Uzodinma Iweala

Em "Feras de lugar nenhum", Uzodinma Iweala mostra as situações ocorridas na vida do garoto Agu e as barbaridades que os seres humanos são capazes de fazer.
De uma hora para a outra, a vida do menino Agu vira de cabeça para baixo: a paz da aldeia em que vive com seus pais e sua irmã é rompida com a chegada de uma milícia liderada por um homem louco e cruel. Sozinho, afastado de sua família, Agu é obrigado a matar para não morrer ao ser recrutado como o mais novo soldado do grupo, presenciando os horrores de um conflito que não compreende. E se tornando parte deles.
Nesse romance lançado em novembro de 2005 nos Estados Unidos e na Inglaterra e já consagrado pelo público e pela crítica, seres humanos são reduzidos a seus aspectos mais primitivos, tornando-se "feras" que promovem a violência e a morte. Ao escolher Agu como narrador da história, Iweala potencializa os horrores presenciados e promovidos pelo menino: é sua voz infantil que nos conduz pela guerra e seus horrores; é ouvindo suas hesitações e pudores de criança que assistimos à sua transformação de menino-que-quer-ser-engenheiro a menino-monstro. A inocência de Agu vai sendo encoberta por assassinatos, estupros, saques e toda sorte de atos criminosos que sofre e que executa. Tornou-se um soldado e cumpre o seu dever, mas ainda se lembra dos ensinamentos da mãe e fica confuso: como pode agora matar sem vomitar ou desmaiar como nas primeiras vezes e continuar temendo a Deus e querendo ser um bom menino?
Em
Feras de Lugar Nenhum, Agu sonha com coisas muito diferentes: matar os homens que fizeram sua família desaparecer, carregar uma arma de verdade, ter o que comer amanhã, passar a mão na bunda da moça que serve bebidas, ser uma árvore gigantesca, fazer o homem que mora na lua sorrir, encontrar sua mãe, voltar pra escola e se tornar, enfim, um engenheiro. Nessa mistura de sonhos, surge um novo e talentoso escritor, que atinge seus leitores não apenas com uma história difícil de ser esquecida, mas com perguntas ainda mais difíceis de serem respondidas: somos capazes de perdoar a qualquer um todas as violências cometidas?
O livro foi lançado aqui no Brasil em 2006, pela Nova Fronteira, com tradução da Christina Baum, 191 pgs.

quarta-feira, 25 de abril de 2012

Rua dos Artistas e Transversais - Aldir Blanc

Tenho várias recordações da época em que li esse livro e também de sua noite de autógrafos, kkk. 
O livro é composto por diversas crônicas divertidíssimas, em que Aldir descreve, primeiramente, sua infância na casa em que morava no bairro do Estácio, seu interesse pela literatura através dos livros do Monteiro Lobato e as aventuras de pedrinho, que lia trepado num galho de árvore em seu quintal. 
O livro segue com a mudança do Aldir para Vila Isabel, a apresentação dos personagens que representam membros de sua familia, de seus amigos de boteco, dos casos hilariantes dos moradores e figurinhas repetidas da Rua dos Artistas e transversais.

O livro é uma compilação e conta com crônicas brilhantes como:
“Terça-feira gorda com muita honra (pg 40), “O mistério da Juracy” (pg 46), “Dilma de olhos no chão” (pg 55), “Revolta na Vila” (pg 70) e as sensacionais “Visita de cerimônia” (pg 219), “Quarto dos santos” (pg 232) e “Promessa” (pg 229).

Se as crônicas são de casos reais realmente não sei, da cabeça do Aldir tudo é possível, kkk. Um vendedor de uma livraria, no bairro da Tijuca (RJ), que por sinal, o mesmo do Aldir, trocava um papo comigo e sabendo da minha admiração pelo cara, me falou:

- Aí, o livro do Aldir que você comprou semana passada vai ter noite de autógrafos, no Restaurante Baobá, e vai ser promovida pela livraria.

Não acreditei. Era minha grande oportunidade de levar uma idéia com o Aldir sobre algumas de suas crônicas, saber se aquelas loucuras eram reais,  já que para tirar o cara de casa era, e ainda é, uma missão quase impossível. 
No muito, quando sai, é para tomar uma no seu fiel boteco, próximo a sua casa, na Tijuca, 

O Restaurante Baobá era ótimo pra mim, próximo da minha casa e da livraria, quase um espaço anexo. Perfeito!!!!!!!

No decorrer da noite de autógrafos cheguei junto do Aldir e perguntei:

- O que você escreveu na crônica “Promessa”, foi verdade? 

Aldir: - Sim , pior que foi. 

Não parei de rir lembrando do texto, que conta a sacanagem feita, por sua avó Noemia, ao casal Lindauro e Deysinha.  Não consegui encontrar o texto inteiro, na internet, para colocar aqui pra vocês, apenas um pedaço dele ( pgs 230 e 231, as duas anteriores o Google não disponibiliza).  

Ainda em minha crise de riso, vejo Aldir virar pro lado e ouço: - fica quieto pai. 

Pensei. O pai do Aldir, Sr Alceu, o famoso personagem Ceceu Rico, tá aqui? Firme e forte?
  
O livro foi lançado no ano que o escritor, compositor, poeta, critico, .....completou 60 anos.  Logo, achei que seu pai já não estava entre nós.

Falei: - Caraca, que legal seu pai aqui. 

Vira ele, e manda: - Eu aqui cheio de cabelo branco, e ele super conservado, parece mais meu filho. Cachaça é foda. kkkkkkkkk

segunda-feira, 23 de abril de 2012

Porno Política - Paixões e taras na vida brasileira - Arnaldo Jabor



Neste livro, Arnaldo Jabor apresenta uma coletânea de crônicas em que temas públicos misturam-se ao universo de nossas fixações interiores. Política, sexualidade, miséria, arte, memória, medo - ao usar o cotidiano como matéria-prima de seus textos, Jabor associa fato e ficção mostrando paixões e taras que talvez preferíssemos ocultar. Com seu texto brilhante, irônico, ácido e direto conduz o leitor a assuntos bizarros de nossa política, com passagens até bem engraçadas. 
Uma crônica que adorei é a "Estamos todos no inferno", na página 43 do livro, e que posto abaixo pra vocês.

 "Estamos todos no inferno"

'Você é do PCC?"

- Mais que isso, eu sou um sinal de novos tempos.
Eu era pobre e invisível... vocês nunca me olharam durante décadas... E antigamente era mole resolver o problema da miséria... O diagnóstico era óbvio:
migração rural, definível de renda, poucas favelas, ralas periferias...
A solução é que nunca vinha... 

Que fizeram? 
Nada.
O governo federal  alguma vez alocou uma verba para nós? 

Nós só aparecíamos nos desabamentos no morro ou nas músicas românticas sobre a "beleza dos morros ao amanhecer", essas coisas...
Agora, estamos ricos com a multinacional do pó.
E vocês estão morrendo de medo... Nós somos o início tardio de vossa consciência social... Viu?
Sou culto... Leio Dante na prisão...


- Mas... a solução seria...


- Solução? 


- Não há mais solução, cara...A própria idéia de "solução" já é um erro. 
Já olhou o tamanho das 560 favelas do Rio?
Já andou de helicóptero por cima da periferia de São Paulo? 

Solução como? 
Só viria com muitos bilhões de dólares gastos organizadamente, com um governante de alto nível, uma imensa vontade política, crescimento econômico, revolução na educação, urbanização geral; e tudo teria de ser sob a batuta quase que de uma "tirania esclarecida", que pulasse por cima da paralisia burocrática secular, que passasse por cima do Legislativo cúmplice (Ou você acha que os 287 sanguessugas vão agir? Se bobear, vão roubar até o PCC...) e do Judiciário, que impede punições. Teria de haver uma reforma radical do processo penal do país, teria de haver comunicação e inteligência entre polícias municipais, estaduais e federais (nós fazemos até conference calls entre presídios...)
E tudo isso custaria bilhões de dólares e implicaria numa mudança psicossocial profunda na estrutura política do país. Ou seja: é impossível. Não há solução.


- Você não têm medo de morrer?


- Vocês é que têm medo de morrer, eu não. Aliás, aqui na cadeia vocês não podem entrar e me matar... mas eu posso mandar matar vocês lá  fora.... Nós somos homens-bomba. Na favela tem cem mil homens-bomba... Estamos no centro do Insolúvel, mesmo... Vocês no bem e eu no mal e, no meio, a fronteira da morte, a única fronteira.
Já somos uma outra espécie, já somos outros bichos, diferentes de vocês. A morte para vocês é um drama cristão numa cama, no ataque do coração...
A morte para nós é o presunto diário, desovado numa vala... Vocês intelectuais não falavam em luta de classes, em "seja marginal, seja herói"? Pois é: chegamos, somos nós! Ha, ha... Vocês nunca esperavam esses guerreiros do pó, né? Eu sou inteligente. Eu leio, li 3.000 livros e leio Dante...mas meus soldados todos são estranhas anomalias do desenvolvimento torto desse país.
Não há mais proletários, ou infelizes ou explorados. Há uma terceira coisa crescendo aí fora, cultivado na lama, se educando no absoluto analfabetismo, se diplomando nas cadeias, como um monstro Alien escondido nas brechas da cidade.
Já surgiu uma nova linguagem. Vocês não ouvem as gravações feitas "com autorização da Justiça"? Pois é. É outra língua. Estamos diante de uma espécie de
pós-miséria. Isso. A pós-miséria gera uma nova cultura assassina, ajudada pela tecnologia, satélites, celulares, internet, armas modernas. É a merda com chips, com megabytes. Meus comandados são uma mutação da espécie social, são fungos de um grande erro sujo. 


- O que mudou nas periferias?


- Grana. A gente hoje tem. Você acha que quem tem US$40 milhões como o Beira-Mar não manda?
Com 40 milhões a prisão é um hotel, um escritório...
Qual a polícia que vai queimar essa mina de ouro, tá ligado? 

Nós somos uma empresa moderna, rica. Se funcionário vacila, é despedido e jogado no "microondas"... ha, ha... 
Vocês são o Estado quebrado, dominado por incompetentes.
Nós temos métodos ágeis de gestão. 

Vocês são lentos e burocráticos. 
Nós lutamos em terreno próprio.
Vocês, em terra estranha. 

Nós não tememos a morte.
Vocês morrem de medo. 

Nós somos bem armados.
Vocês vão de três-oitão. 

Nós estamos no ataque.
Vocês, na defesa. Vocês têm mania de humanismo.
Nós somos cruéis, sem piedade. 

Vocês nos transformam em superstars do crime. 
Nós fazemos vocês de palhaços.
Nós somos ajudados pela população das favelas, por medo ou por amor. 

Vocês são odiados. Vocês são regionais, provincianos. 
Nossas armas e produto vêm de fora, somos globais.
Nós não esquecemos de vocês, são nossos fregueses.
 Vocês nos esquecem assim que passa o surto de violência.


- Mas o que devemos fazer?


- Vou dar um toque, mesmo contra mim.
Peguem os barões do pó! Tem deputado, senador, tem generais, tem até ex-presidentes do Paraguai nas paradas de cocaína e armas. Mas quem vai fazer isso? O Exército? Com que grana?
Não tem dinheiro nem para o rancho dos recrutas...
O país está quebrado, sustentando um Estado morto a juros de 20% ao ano, e o Lula ainda aumenta os gastos públicos, empregando 40 mil picaretas. O Exército vai lutar contra o PCC e o CV? Estou lendo o Klausewitz, "Sobre a guerra". Não há perspectiva de êxito... Nós somos formigas devoradoras, escondidas nas brechas... A gente já tem até foguete antitanques... Se bobear, vão rolar uns Stingers aí...Pra acabar com a gente, só jogando bomba atômica nas favelas... Aliás, a gente acaba arranjando também "umazinha", daquelas bombas sujas mesmo.....
Já pensou? Ipanema radioativa?


--- Mas... não haveria solução?


- Vocês só podem chegar a algum sucesso se desistirem de defender a "normalidade". Não há mais normalidade alguma. Vocês precisam fazer  uma autocrítica da própria incompetência. Mas vou ser franco... na boa...na moral... Estamos todos no centro do Insolúvel. Só que nós vivemos dele e vocês... não têm saída. Só a merda. E nós já trabalhamos dentro dela.
Olha aqui, mano, não há solução. Sabem por quê?
Porque vocês não entendem nem a extensão do problema. 

Como escreveu o divino Dante:
"Lasciate ogna speranza voi che entrate!"
Percam todas as esperanças.
 

Estamos todos no inferno.

Arnaldo Jabor 

Estante Virtual

sábado, 21 de abril de 2012

Cabeça de porco - Luiz Eduardo Soares, MV Bill e Celso Athayde

Esse livro é a união do morro e do asfalto, a junção das experiências de um mestre em  antropologia e doutor em ciências políticas, de um rapper e um dos fundadores da CUFA e também criador-produtor do prêmio Hutúz. O livro traça um painel surpreendente sobre crianças e jovens que vivem o dia-a-dia da violência, em nove estados brasileiros. Pesquisas e testemunhos pessoais dos 3 escritores se associam neste livro - que vibra com a emoção de quem assistiu, de muito perto, a situações perigosas e reveladoras, nas favelas e nos gabinetes do poder. 
Todos esses depoimentos se associam aos textos do antropólogo Luiz Eduardo Soares - um conjunto de registros etnográficos apurados ao longo dos últimos sete anos, sobre juventude, violência e polícia. O propósito do livro é apresentar um painel realista sobre a violência instalada no Brasil. A intenção não é denunciar e sim compartilhar com os leitores preocupações e reflexões, na perspectiva de manter viva a esperança.

Estante virtual

sexta-feira, 20 de abril de 2012

Honra ou Vendetta - Silvio Lancelotti

Descobri esse livro, por acaso, num balcão de uma livraria, em 2001, e confesso que a priori fiquei atraido pelo título e pela imagem da mão ensangüentada. Quando li o texto da capa -  Na Sicília, em Nova York, no Rio e em São Paulo, revelações inéditas da guerra absurda entre os Honrados Mafiosos da Velha Tradição e os traficantes impiedosos da Nova - pensei, esse livro deve ser espetacular. 
Vai ver que o culpado, desse meu interesse pelo tema, seja  Francis Ford Coppola com seu filme Poderoso Chefão I , que contava a história de Dom Corleone, interpretado por Marlon Brando, e seus pupilos. 
Em honra ou Vendetta. Silvio Lancelotti narra a história de Tony Castellamare e os seus homens. O livro tem como cenário quatro cidades, em que Tony trafega - Palermo, Nova York, Rio de Janeiro e São Paulo. Tony representa, junto com seu grupo, a Velha Tradição da máfia e batalha brutalmente contra a Nova e seus traficantes de drogas. O livro mescla fatos reais com ficção e tem inicio quando a mulher de Tony e seus três filhos morrem em um atentado que fora preparado para matá-lo. Seu carro explode em uma rua de Palermo com sua familia dentro. Tony então começa a elaborar sua Vendetta.

Fiquei no inicio meio receoso de comprar o livro pois nunca tinha lido absolutamente nada do Silvio Lancelotti e me lembrava dele como apresentador de um programa de gastronomia e de seus comentários sobre futebol, mas escritor?

Vou te falar - o cara me surpreendeu. Gostei muito desse livro e recomendo. 
Para quem gosta do tema, vai curtir muito o livro.



quarta-feira, 18 de abril de 2012

O estrangeiro - Albert Camus


Nesse livro Camus narra a historia de Meursault, um jovem escriturário comum, sem ambição,e conformado com sua vida. Vivia de prazeres imediatos e era indiferente a tudo e a todos, não se importava com absolutamente nada, nem com a morte de sua própria mãe. Porém, sua vida toma outro rumo em um curto e impensado momento em que comete um crime. Preso passa pelas agonias do confinamento e sua maior luta é encontrar meios para matar o tempo, pois seus dias são idênticos. Com a falta de mulheres, cigarros, praia e de pessoas para conversar descobre a importância da liberdade que perdera.
A escrita de Camus é extremamente elaborada e cuidadosa, nenhum incidente, personagem ou dialogo é inútil. “O Estrangeiro” é uma aula de concisão. Os personagens são descritos de forma breve e mesmo assim podemos sentir a personalidade e as motivações de cada um. O escritor quis com isso apresentar cada integrante de sua história como pessoas comuns da vida do leitor, como um vizinho, um colega de trabalho ou um porteiro. Todos passíveis de erros e defeitos, que apenas vivem.
O Estrangeiro” é um romance curto, que pode ser lido em um algumas horas, mas, paradoxalmente, não é breve. O escritor brilhantemente faz com que o leitor participe de cada sentimento, e cada dia, que Meursault passa em sua cela minúscula. O livro em si é uma grande crítica ao sistema judiciário. Demonstra como o julgamento, responsável pelo destino de milhares de pessoas, pode ser falho.